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Chico Daniel e a arte titireteira de João Redondo

O que é que na arte bonequeira do nordeste do Brasil causa tanta impressão e emoção?
Serà a sua espontaneidade? os seus delírios? suas cores? a sua historia tão antiga? Serà o modo em que bonecos, dentro de uma barraca onde um artista se esconde, recriam toda uma realidade no mundo das fazendas e da escravidão e do Nordeste de hoje?
Serà porquê que nessas pequenas e fantásticas esculturas e nesses diálogos delirantes encontramos muitas realidades culturais como a antiga Comedia dell’Arte da Europa, ou a Africa com a sua força e seus ritmos, e o Brasil com seu incrível jeito de misturar e digerir as diferentes culturas?
Serà o seu povo? Ao assistir a um espectáculo, vemos a idílica participação do público. O povo não pode ficar passivo frente a uma empanada cheia de bonecos ao lado de uma orquestra. O povo está o tempo tudo participando, gritando, falando aqui, brigando lá, implorando para que uma boneca dance pouquinho mais. E assim correm as oras, assim passa a noite todinha.
A estória que contaremos forma parte da tradição da cultura popular nordestina, e da historia do teatro de bonecos. Na região de Rio Grande de Norte è conhecida como João Redondo. Contaremos esta estória através de um bonequeiro que até o fim dos seus últimos dias de vida empenhou-se em não ser o último daquela tradição.
Quem era João Redondo? João Redondo, como o mamulengo e já uma lenda a qual são atribuídas diversas origens. Uns dizem que João Redondo era um capitão nos tempos da escravidão, outros dizem que ele era um fazendeiro e que tinha um empregado que era o negro Baltazar. O povo construiu bonecos representando os habitantes mais importantes da fazenda, os puseram em uma mala e começaram a dar-lhe vozes, em seguida resolveram fazer outros personagens do povo e a dar-lhes as falas. Assim foram recriando o mundo das fazendas nordestinas com os bonecos, as piadas e as cenas que se apresentavam no terreiro, cravando quatro paus na terra, pendurando um lençol para se esconder dentro e deixar que os bonecos representassem todo o seu mundo.
E assim foram nascendo muitos Joões Redondos, muitos Baltazares e um bocado de personagens que nas mãos e nas vozes de bonequeiros, dialogavam e bailavam ao ritmo da orquestra: a sanfona, o cavaquinho e o triângulo.
Um dia João Redondo chegou nas mãos de um menino chamado Francisco Angelo da Costa, que uma vez consagrado como bonequeiro seria chamado Chico Daniel honrando a seu pai.
E assim passou toda uma vida como bonequeiro alem de trabalhar como sapateiro até o dia do eclipse do mês de março de 2007 Chico Daniel tomou um banho e se arrumou para sair e fazer um espetáculo no Circo da Luz na cidade de Natal. Disse ao seu filho que ele já estava pronto para partir. Poucos minutos depois, a morte, vestida de lua vermelha levaria o grande bonequeiro Francisco Angelo da Costa deste mundo.
Falam que Chico Daniel deixou dez filhos e trinta netos; uma pequena pensão para a família e um pedido: “Que abram a mala grande, tirem aquela ruma de boneco de dentro e recomecem tudo de novo”.

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